MARLEY & EU (2008)

(Marley & Me) 

4 Estrelas


Dirigido por 
David Frankel.

Elenco: Owen Wilson, Jennifer Aniston, Alan Arkin, Eric Dane, Kathleen Turner, Haley Bennett, Haley Hudson, Tom Irwin, Alec Mapa, Joyce Van Patten, Sandy Martin, Nathan Gamble, Finley Jacobsen e Lucy Merrian. 

Roteiro: Scott Frank e Don Roos, baseado em livro de John Grogan. 

Produção: Gil Netter e Karen Rosenfelt. 

Quando decidi assistir Marley & Eu cometi um erro que jamais deveria ao subestimar o filme antes mesmo de assisti-lo por puro preconceito. Pensei se tratar de mais um filme bobo sobre cachorros super inteligentes que praticamente eram seres humanos, como nos acostumamos a ver ao longo dos anos. Logo na primeira cena, a excelente piada sobre o cão tranqüilo que passeia com o dono me alertou para me despir do preconceito e assistir ao filme com outros olhos. Lição aprendida. Marley & Eu consegue sair da mesmice ao utilizar o cão apenas como instrumento para uma análise mais interessante do amadurecimento do casal principal e a construção de sua família.

John (Owen Wilson) e Jennifer (Jennifer Aniston) são recém-casados, acabaram de comprar um imóvel e trabalham como jornalistas na Flórida, para onde se mudaram recentemente. Ela é muito bem sucedida profissionalmente e ele ainda busca a felicidade neste campo de sua vida. Indeciso quanto a ser pai, John aceita a sugestão de seu amigo Sebastian (Eric Dane) e decide comprar um cachorro de presente para sua esposa. A partir deste momento, o cotidiano do casal ao lado do cachorro servirá de pano de fundo para uma análise mais profunda sobre a evolução da vida dos dois, os sonhos, as frustrações e as realizações de ambos. É claro que o animal de estimação tem papel fundamental na trama, influenciando a vida do casal em diversos momentos, mas de uma forma bem próxima daquilo que acontece no dia a dia de qualquer pessoa que tenha um animal de estimação. Eles não são tão importantes quanto os seres humanos, mas fazem parte das famílias pelo mundo afora.

O trabalho técnico no filme é discreto e competente. Observe por exemplo como a fotografia destaca a cor branca na cena pós-casamento, representando visualmente a paz de espírito do casal naquele momento. As penas brancas flutuando completam esta composição visual e encerram muito bem a cena. Observe como o visual muda completamente quando a trama chega a Florida, destacando cores vivas, que representam a alegria de uma cidade litorânea no verão. O que não posso considerar discreta é a montagem do filme, que em pelo menos duas vezes nos apresenta momentos muito interessantes. Para demonstrar a passagem do tempo na vida do casal, acompanhamos a leitura de um texto de John sobre seu dia a dia com Marley, enquanto a espetacular montagem demonstra visualmente o que o texto diz com imagens que mudam em uma velocidade impressionante. Também merecem destaque as excelentes músicas que tocam no filme.

O roteiro baseado no livro de John Grogan é previsível. Confesso que em poucos minutos de trama eu já imaginei o que aconteceria e acertei em cheio. Isso não desqualifica o trabalho de Scott Frank e Don Ross, já que a trama não deixa de ser interessante em nenhum momento. O foco aqui não é saber o que vai acontecer, e sim a forma como aquelas pessoas vão reagindo aos acontecimentos. Incomoda um pouco a típica mensagem do sonho americano, ou seja, se você se esforça e trabalha muito vai ter sucesso, o que não é uma verdade absoluta no mundo de hoje. (se não viu o filme, pule para o próximo parágrafo). Quanto ao final previsível, trata-se de uma tragédia anunciada. Não por falha do roteiro, mas pelo simples fato de que os cães vivem muito menos que os seres humanos. Na própria vida real as pessoas se recusam a aceitar que, inevitavelmente, um dia isso acontecerá com aquele animal que preencheu tantos vazios ao longo de sua jornada. Conseguir tratar este assunto de forma adulta e sem muitos melodramas é um ponto muito positivo para Marley & Eu.

Owen Wilson tem uma atuação muito irregular, explorando muito pouco o arco dramático que o personagem oferece. Nada o abala. Diversos acontecimentos bons, ruins, de extrema alegria e a mais cruel tristeza acontecem com ele e as reações de John são sempre extremamente frias. Ele é inerte a tudo, é uma pessoa insegura e indecisa. Observe por exemplo com na marcante cena do ultra-som ele reage como se nada tivesse acontecido, assim como sua reação ao saber que Jennifer está grávida é assustadoramente fria. Já nos momentos em que seu personagem demonstra certa inquietação e tristeza por não saber o que quer da vida ele consegue um bom resultado, como nas conversas com seu chefe Arnie Klein (Alan Arkin). Por outro lado, Jennifer Aniston (uma atriz que admiro muito desde os tempos de Friends) oferece um desempenho digno da grande atriz que é. Na mesma cena do ultra-som, podemos notar a diferença de reação entre os atores, com a emoção extremamente humana que Jennifer transmite na cena em um choro contido, mas muito tocante. (se não viu o filme, pule este parágrafo também) Quando Marley está doente, repare como ela abraça carinhosamente o cão e chora ao colocá-lo no carro, pressentindo o que está para acontecer. Seu choro contido vai aumentando gradativamente, transmitindo emoção ao espectador sem apelar para uma atuação exagerada. Já Alan Arkin tem atuação discreta como o chefe de redação de John, com alguns ótimos momentos de bom humor como na despedida de John de seu jornal. Finalmente, Eric Dane faz seu papel de forma correta como o eterno solteirão Sebastian.

Uma agradável surpresa é a boa direção de David Frankel. Utilizando a criatividade, ele consegue compor planos interessantes sem que soem deslocados ou vazios. Ele utiliza por diversas vezes um leve travelling da direita para a esquerda durante as conversas do casal, mantendo o foco no diálogo sem utilizar cortes e closes, o que sempre é interessante. No momento em que Marley dispara em uma corrida pela praia, Frankel faz um excelente travelling acompanhando o cachorro, em uma bela composição visual. Ele também cria uma inteligente elipse através do som, em determinado momento que a palavra incorrigível é pronunciada. É verdade que o treinamento de Marley nunca nos convence de que ele vai aprender algo (e aqui Kathleen Turner tem uma atuação pífia como a Sra. Kornblut) e que em diversos momentos duvidamos da enorme paciência que o casal tem com o rebelde cachorro. Somente depois de muito tempo é que Jennifer explode e se rebela contra o furacão chamado Marley, já demonstrando a mudança em sua personalidade, agora alterada pela vida. Ela já não trabalha mais e passa o dia inteiro cuidando da casa e das crianças. Aqui Jennifer Aniston tem outro momento brilhante, demonstrando claramente o incômodo que Jennifer sente por ter mudado tanto sua vida ao longo dos anos, o que é muito comum na maioria das mulheres que largam o emprego para cuidar dos filhos.

Utilizando o cachorro de estimação como fio condutor das mudanças ocorridas na vida do casal, Marley & Eu é na realidade um belo estudo de dois personagens. John, que era um homem sem ambição, indeciso e inseguro, evolui e se torna um profissional de sucesso e um verdadeiro pai de família. Este amadurecimento fica evidente quando John encontra o amigo Sebastian pelas ruas de Filadélfia. A conversa entre eles e a forma como o amigo aborda duas mulheres depois que eles se despedem serve para lembrar John o quanto ele amadureceu durante os últimos anos de sua vida. Jennifer também passa por transformações, mudando de profissional de sucesso e realizada para uma mãe pouco confortável em sua nova realidade. E acompanhando todo este processo estava Marley, “o pior cão do mundo”. Em um momento tocante do filme, Jennifer percebe que sua família havia começado com ele. E é interessante pensar como todo animal de estimação normalmente acompanha a evolução de seus donos, e quando eles se vão, parte da vida de seus donos vai com eles também.

Conseguindo ser emocionante sem apelar para melodramas, Marley & Eu se destaca pela forma adulta que encara o animal de estimação. Marley não é superdotado, não é extremamente inteligente e sequer é obediente. Sua virtude é apenas ser parte de uma família, um animal de estimação normal, como todos os outros. E é aí que mora seu encanto, na identificação que a maioria das pessoas tem com ele enquanto assistem ao filme.

Marley & Eu
O que Thiago Barrionuevo pensa disso: O filme mudou algumas coisas na história, o que achei sem necessidade. De qualquer forma, é um bom filme para os preguiçosos (que não lêem livros) e para os curiosos (como eu, que queria saber como fariam para representar o Marley como descrito no livro). Vi nos extras do DVD, que eles usaram 22 cachorros diferentes durante as filmagens, todos representando o Marley… Incrível o que os adestradores conseguem…


Leitores, mãos a obra. A Ilha de Lost é toda sua…
Roberto Siqueira

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